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TERTÚLIA DO FADO SADINO

  • Foto do escritor: Joaquim Gouveia
    Joaquim Gouveia
  • 23 de nov. de 2025
  • 3 min de leitura

"Considero-me fadista! Nasci e permaneci assim".


Inês Pereira é uma das vozes que o fado já tem como certas no seu próprio percurso enquanto estilo que bem define a canção e a chamada alma portuguesa. Entoa com emoção e sentido, voz forte e trinado brilhante, ao jeito e gosto das plateias que a aplaudem cada vez mais certas do seu valor e talento natural. Sente-se fadista e sabe que já nasceu assim como se o fado fosse um verdadeiro dom que tem gene própria e só possível aos predestinados. Por isso sabe bem que apesar do fadista poder enfrentar um momento de tristeza por causa diversa, no acto de entrar em palco e no arpejo dos primeiros acordes da guitarra e da viola, tudo acalma como se o fado falasse com as mágoas e as acalmasse. Nesta conversa Inês Pereira, fala do seu percurso, destaca vários fadistas e confirma que mesmo sem perceberem uma palavra, os turistas perante o fado fazem silêncio porque percebem, isso sim, a intensidade deste autêntico estilo musical, quase único, no mundo. 

 

Joaquim Gouveia - Quando percebeste que o fado poderia fazer parte de uma carreira artística que, entretanto, se foi consolidando na tua vida?

Inês Pereira - Desde muito cedo percebi que o fado era um estilo de que gostava. Quando digo cedo, digo a partir dos 4/5 anos, mas só aos 15, comecei a cantar em público, com viola e guitarra, altura que a minha mãe achou que faria sentido apresentar-me ao público a cantar um estilo tão forte e tão significativo.

JG - O fado, no teu caso, é paixão ou um estado de alma?

IP – É uma paixão e um estado de alma sem dúvida nenhuma. Ainda há dias falava com colegas e amigos do fado, precisamente, onde comentávamos que podemos estar com a maior tristeza do mundo, mas quando cantamos tudo acalma, parece que há alguma coisa que passa por nós e nos leva as mágoas. Para mim, como diz a letra de Manuela de Freitas “A fadista”, interpretada pela minha Madrinha de Fado, Ana Moura, “Canto antigo e tão profundo, que vindo do fim do mundo, é prece, pranto ou pregão (…)” .

JG - É fadista quem quer, ou já se nasce com essa vocação, com esse tipicismo tão evidente de entoar, vocalmente e em trinado, a chamada canção nacional?

IP - É fadista quem nasce assim, sem via de dúvidas. Como diz a nossa querida Cidália Moreira, “há muita gente a cantar fado, mas há poucos fadistas” , e isto é real. Eu considero-me fadista, nasci e permaneci assim. É engraçado, mas tenho plena consciência disto, eu se cantar uma canção, vai soar sempre a fado. Pode não ser o trinado, pode não ser a entoação, mas só a colocação vocal diz muito. É diferente, é tudo sempre muito diferente no que toca ao fado.


JG- És da opinião que há uma tertúlia do fado em Setúbal?

IP – Tenho conhecimento que existe, não só uma, mas sim várias tertúlias de fado, não só de fado Lisboa como também de fado Coimbra. 

JG - Quem são as tuas referências no fado?

IP - São várias, entre as mais antigas e as mais recentes. Das referências antigas temos a Amália Rodrigues, Fernanda Maria, Hermínia Silva, Teresa Tarouca, Beatriz da Conceição, Deolinda Rodrigues, Maria da Nazaré e Fernando Maurício.

Das mais recentes temos a Sara Correia, Ana Moura, Raquel Tavares, Carminho e Ricardo Ribeiro.


JG - Como defines a atualidade em termos do fado nacional, entre novos e antigos fadistas, guitarristas, violas e autores?

IP – É maravilhosa, mas também muito trabalhosa. Atualmente existe já muito além do que é o verdadeiro fado: uma viola, uma guitarra portuguesa e um baixo. Faz falta a evolução, mas sempre com a consciência que aquela é a raiz, é o início. Daí ser trabalhosa, é necessário sempre (e tem-se conseguido), conciliar tudo em projetos bonitos.

JG - Porque é que os turistas adoram o fado sem sequer perceberem as letras? É um sentimento único para além da própria emoção?

IP - Por experiência própria, que já trabalhei em algumas casas de Fado tanto no Bairro Alto, como em Alfama e na Mouraria, que sim, a grande maioria não percebe uma única palavra, mas percebe a emoção, o sentimento, a intensidade com que se canta cada palavra. É interessante!

JG - Que caminhos tens conseguido trilhar e que projetos tens no imediato para a continuidade da tua carreira?

IP - Tenho conhecido muita gente linda, tenho participado em vários eventos, tenho muito trabalho, tenho conseguido trilhar um caminho bonito dentro das possibilidades. Sou feliz! Para já, o que virá a ser é segredo! (risos)

 
 
 

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