Tertúlia do Fado Sadino - J.L.
- joaquimgouveia06
- 29 de dez. de 2025
- 4 min de leitura
JOANA LANÇA
“O FADO VIVE UMA FASE MUITO BONITA”

Feliz a fazer o que faz e da forma como o faz. É assim que a jovem fadista setubalense Joana Lança, se dá a conhecer numa arte onde a presença da paixão e o cultivo da alma se misturam numa perfeita simbiose, como afirma, para que o Fado faça todo o sentido. É a chamada canção nacional e para esta nossa fadista “vive de um popularismo” que toca até os estrangeiros que o escutam pela primeira vez numa casa de fado carregada de tipicismo. Filha da fadista Carla lança, diz ter na mãe a sua principal referência no fado, mas sem que alguma vez tivesse sentido pressão para lhe seguir os passos. Nem foi preciso porque ao perceber a sua condição de intérprete com dotes e trejeitos fadistas, começou a cantar por brincadeira e nos dias de hoje já conquista prémios em Lisboa, Capital nacional do Fado.
Joaquim Gouveia - Quando percebeste que o fado poderia fazer parte de uma carreira artística que, entretanto, se foi consolidando na tua vida?
Joana Lança – A verdade é que o fado está presente na minha vida desde sempre. Na minha casa sempre se ouviu fado, por influência da minha mãe (Carla Lança) e por isso ouço-o desde sempre. As coisas aconteceram de uma forma bastante natural, sem pressões minhas e dos meus pais. Fui cantando uns fadinhos por brincadeira quando ia às noites de fado com a minha mãe, gravei um tema no segundo trabalho discográfico dela, até que comecei a integrar cartazes de noites de fado e hoje estou aqui, no lugar onde gosto de estar. Sem pressões, no equilíbrio e só a aproveitar o que a vida me vai dando.
JG - O fado, no teu caso, é paixão ou um estado de alma?
JL – Penso que as duas coisas. Acho que não funcionam de forma separada, são uma simbiose. Sem paixão não há alma, sem alma não há paixão. Canto o fado por paixão e cantar o fado é um estado de alma.
JG - É fadista quem quer, ou já se nasce com essa vocação, com esse tipicismo tão evidente de entoar, vocalmente e em trinado, a chamada canção nacional?
JL - É a minha opinião e só a minha opinião, mas acho que já se nasce fadista. Lógico que podemos e devemos evoluir, ouvir quem tem bons conselhos para dar e temos sempre mais alguma coisinha para aprender e melhorar, mas a tal paixão e o tal estado de alma, já lá estão. Nascem connosco.
JG- És da opinião que há uma tertúlia do fado em Setúbal?
JL – Não, não existe atualmente uma tertúlia de Fado em Setúbal. A tertúlia implica um momento de partilha, de aprendizagem, de fado no seu estado puro, sem nenhuma remuneração.
JG - Quem são as tuas referências no fado?
JL - Eu não consigo nomear só uma referência, tenho várias, até porque gosto de beber e tirar um bocadinho de cada um(a) dos(as) fadistas dos quais gosto. A minha primeira referência será sempre a minha mãe, “bebi” muito e aprendo ainda hoje com ela. E depois tenho mais algumas referências, grandes fadistas da nossa canção nacional, como: Amália Rodrigues, Cátia Guerreiro, Carminho, Raquel Tavares, Sara Correia. Tenho também algumas referências no fado, que são menos projetadas e conhecidas, mas que também têm muito para oferecer.
JG - Como defines a atualidade em termos do fado nacional, entre novos e antigos fadistas, guitarristas, violas e autores?
JL – Acho que vivemos uma fase bastante crescente e positiva no fado. A nova geração tem trazido novas interpretações, roupagens, maneirismo… Os antigos, como carinhosamente são nomeados, perpetuam a tradição, a alma, a forma e relembram-nos da origem do Fado. Mas atualmente acho que o fado vive uma fase MUITO bonita, com gente com muito conhecimento, muito fado, muita alma e vontade de fazer pelo fado, elevando-o cada vez mais.

JG – Porque é que os turistas adoram o fado sem sequer perceberem as letras? É um sentimento único para além da própria emoção?
JL – Mesmo cantando os poemas na nossa língua, a paixão, o sentimento e o “estado de alma”, são uma linguagem universal. Para além disso, acho que o som da viola e o trinar da guitarra portuguesa, também não passam despercebidos aos turistas. Para além disso temos, também, o fator popularismo, que o Fado ganhou nas últimas décadas. No fundo, acho que é a combinação de todas estas coisas.
JG - Que caminhos tens conseguido trilhar e que projetos tens no imediato para a continuidade da tua carreira?
JL - Tenho trilhado os caminhos que vão surgindo com muita serenidade, respeito e acima de tudo, amor pelo Fado. Fico muito feliz por ser presença assídua em diversos projetos da Câmara Municipal de Setúbal, Juntas de Freguesia e Coletividades do concelho. Ser reconhecida na cidade que me viu nascer e crescer é sem dúvida um privilégio. Felizmente tenho tido a oportunidade de cantar noutros concelhos do nosso país e, em Lisboa, também, já tive a oportunidade de alcançar alguns prémios em concursos de fado da Capital. Tenho um projeto no forno com a minha mãe, Carla Lança. Em breve deverão surgir novidades. Em jeito de resumo, sou feliz a fazer o que faço e da forma como faço.


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