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Tertúlia do Fado Sadino ,*,*

  • Foto do escritor: joaquimgouveia06
    joaquimgouveia06
  • 27 de fev.
  • 6 min de leitura

Albano Almeida (viola de fado)

“O SILÊNCIO QUE SE VAI CANTAR O FADO

É MESMO OBRIGATÓRIO!”


Albano Almeida é um “pluri-instrumentista” no que aos cordofones (instrumentos musicais de cordas), diz respeito. Não só executa grande parte deles, como sabe a história de cada um e até tem realizado exposições temáticas sobre a cordofonia. É figura por demais conhecida em Setúbal, onde desde a sua juventude tem mostrado talento, valor e muita participação tanto no desporto como, essencialmente, na música. De momento está dedicado em absoluto à viola de fado e o seu percurso confere-lhe um currículo invejável quer pelo número de espetáculos em que participou, mas acima de tudo, pela qualidade que imprime a cada um deles. Sabe falar com rigor do fado, da viola e da guitarra como acompanhamento, dos fadistas, autores e público. Percebe a essência deste estilo de cantar que levou a UNESCO, a considerá-lo Património Imaterial da Humanidade. Albano Almeida, será, por ventura, um dos mais esclarecidos acompanhantes do fado no país, com autêntico manual para quem quer aprender e saber sobre os meandros da canção nacional


Joaquim Gouveia - Quando percebeste que o acompanhamento do fado à viola poderia fazer parte de uma carreira artística que, entretanto, se foi consolidando na tua vida? Já tinhas uma vasta experiência com instrumentos de corda noutros projetos, embora a viola fosse sempre o mais utilizado...

Albano Almeida – A viola dedilhada foi de facto o segundo instrumento que comecei a aprender, o primeiro foi flauta na Capricho Setubalense, com as sebentas do solfejo com o saudoso Sr. Veiga, foi mesmo o inicio. Comecei por aprender viola dedilhada no Agrupamento de Escuteiros 415, de Santa Maria, aqui na cidade de Setúbal, tendo mais tarde frequentado  aulas de guitarra clássica no Instituto Musical Patrício, com o senhor Aguinaldo Ribeiro, que cantava e tocava muito bem, tendo mais tarde frequentado a Academia de Música Luísa Todi, onde conheci a saudosa Maria Adelaide Rosado Pinto e me influenciou. Num outro nível e já adolescente, travei conhecimento com Dimas Pereira, homem de uma grandeza extraordinária e com quem partilhei momentos de aprendizagem na música e sobretudo para a vida. Foi assim o inicio que me fez mais tarde participar em diversos projectos musicais tais como: Grupo Cantares, Banda do Andarilho, D’Traz da Guarda e mais tarde, por influência do amigo e excelente viola de fado Vitro Pereira é que começei a descobrir o Fado.

JG - O fado é paixão ou um estado de alma? Quando acompanhas um fadista percebes se existe, ou não, a frequência própria que o fado exige na sua interpretação?

AA –  O Fado é um pouco de tudo isso que referes e tem  componentes muito  interessantes que herdou das nossas tradições orais, dos contadores de histórias, na forma como elas se escreviam e cantavam. As quadras, as décimas, as glosas são formas de expressão populares e os cantadores e cantadeiras expressavam assim a sua arte. Claro que existiram mudanças, mas a sociedade também mudou e o mundo nessa transformação “obrigou” a que o fado se ajustasse a novas realidades.  Por exemplo: com o aparecimento da rádio e da televisão o Fado na sua forma cantada teve que sofrer transformações, hoje com tudo o que há de novas tecnologias acabamos por perceber que seria quase impossível cantar em televisão um poema muito extenso com um mote e com quatro décimas. Sendo uma forma de expressão popular é natural que para cantar ou tocar o fado, seja entregue uma certa solenidade e consequentemente um estado de espirito que pode ser mais intimista ou alegre, dependendo do que se irá cantar. É sempre de bom tom assinalar “Silêncio que se vai Cantar o Fado”.


"A elevação do Fado a Património Imaterial da Humanidade, criou bastantes escolas de aprendizagem do fado"

 

JG – Acompanhar musicalmente um fadista exige muito conhecimento e, sobretudo, um certo “golpe de rins”, ou seja, a facilidade de obrigá-lo a afinar quando destoa, ou a colocá-lo no compasso certo quando acelera ou retarda o andamento provocando a quebra da sua cadência. No fundo é um trabalho que exige muita paciência e rigor…

AA – Importante é percebermos como o cantador aborda o fado, se temos de tocar mais baixo, se tocamos mais rápido ou mais lento, o nosso acompanhamento musical tem muito a ver com a intensidade que o fadista entrega no momento em que vai cantar e interpretar. Será nesse triunvirato entre guitarra, viola e voz que o Fado acontece. Os músicos têm de saber ler rapidamente o que o cantador quer.


Albano Almeida, com Rui do Cabo (guitarra portuguesa)
Albano Almeida, com Rui do Cabo (guitarra portuguesa)

JG- És da opinião que há uma tertúlia do fado em Setúbal?

AA – Interessante essa pergunta. Eu e o Rui do Cabo, quando começámos a tocar e a acompanhar fadistas, uma das coisas que sentíamos era de que as intervenções eram sempre muito esporádicas e tentámos arranjar locais onde se pudesse tocar e cantar, trocar experiências, tocar fados e até conseguimos em algumas vezes criar essa tertúlias como no Passo do Olival, Cantinhos do Fado, ou Restaurante da Praia da Albarquel, do amigo Júlio Silva (onde estivemos dez anos a realizar  as “Quartas ao Luar com Fado”). Foram locais onde tentámos promover e divulgar o Fado e os seus intérpretes. Passaram por nós muitas vozes da cidade e também do distrito e muitos músicos, que connosco tocavam e trocando aprendizagens e experiências, essa tertúlia aconteceu, sendo que neste momento estará mais parada e talvez à espera de uma nova oportunidade para voltar a acontecer.

JG - Quem são as tuas referências na viola de fado?

AA – Eu aprendi a “gatinhar” no fado com um músico de excelência o Vitor Pereira, ensinando-me muita coisa sobre o fado, diferenciando o que são considerados fados tradicionais ou fados canções, marchas populares, as  abordagem da viola, a forma como a guitarra responde à voz, foi com um mestre que aprendi.

JG - Como defines a atualidade em termos do fado nacional, entre novos e antigos fadistas, guitarristas, violas e autores?

AA – desde que o Fado foi elevado a Património Imaterial da Humanidade, em 27 de Novembro de 2011, houve um grande ressurgimento de casas de fado, de cantores e também de músicos e, por consequência, a oportunidade para quem já andava no Fado, passarem aos mais novos os seu saberes e a sua experiência. Essa escola, que não sendo “Universidade”, serve para juntar diferentes gerações criando “escola” para os mais novos.

JG – Porque é que os turistas adoram o fado sem sequer perceberem as letras, o que se canta? É um sentimento único para além da própria emoção?

AA – Sendo o Fado uma expressão musical mais acústica, não requerendo aparelhagens sonoras e sendo na maior parte das vezes interpretado em espaços pequenos, requer por isso uma certa solenidade, um quase silêncio.  E nessa interpretação e entrega está, por certo, o segredo para quem nos visita gostar de ver e ouvir essa entrega, apesar de não perceberem a língua portuguesa.


"O fado deu-me a oportunidade de fazer aquilo que mais amo, que é tocar um instrumento musical"


Albano Almeida, com a fadista Susana Martins e Rui do Cabo
Albano Almeida, com a fadista Susana Martins e Rui do Cabo

JG - Que caminhos tens conseguido trilhar e que projetos tens no imediato para a continuidade da tua carreira? As atuações nas casas de fado em Lisboa, são uma escola de alto calibre, certo?

AA – Costuma dizer-se que “quando uma porta se fecha outra se abre” e quando alguns projetos musicais, onde fui fundador ou participante, o Fado deu-me a oportunidade de continuar a fazer aquilo que mais amo, que é tocar um instrumento e dando-me a oportunidade de conhecer imensas vozes e músicos, tenho conhecido gente fantástica. A convite da direção da UNISETI - Universidade Sénior de Setubal - de há cinco anos a esta parte iniciámos uma disciplina de História do Fado, que é frequentada por cerca de 20 alunos e onde se falam dos modos poéticos utilizados, nas suas métricas musicais e alguns alunos são os criadores dos seus próprios poemas. Participam, também,l nos almoços de Natal, nas sessões do Dia Mundial da Poesia e parte destes alunos tem já participado no programa Fado Vadio, da Rádio Amália. Neste momento e a par das actuações em casas de fado na cidade de Lisboa e em Setúbal, acompanho regularmente alguns artistas com a guitarra portuguesa de Rui do Cabo, sendo que num futuro mais próximo estaremos por terras da Suíça, nas Comemorações do 25 de Abril.

JG – Na maior parte das atuações tens o Rui do Cabo, como guitarrista ao teu lado. São já muitos anos de parceria bem referenciados nos meios das fadistices. A cumplicidade é fator essencial para um bom acompanhamento de qualquer fadista. Houve já um momento muito alto na vossa carreira enquanto acompanhantes nessa parceria?

AA – Também para o Rui do Cabo, o Fado foi uma porta que se abriu quando, por motivos profissionais deixou a edição e promoção musical num estúdio onde trabalhava. O Rui foi, aos poucos descobrindo a guitarra portuguesa, talvez por influência do seu pai que também tocou guitarra e fomos criando muita cumplicidade. O segredo é fazermos com muita entrega e gosto, temos tido a sorte de já ter acompanhado muitos artistas, tais como: Nuno de Aguiar, Vicente da Câmara, Piedade Fernandes, Deolinda de Jesus, José Manuel Barreto, Carla Lança, Octaviano Sales, Jorge Nuno, Linda Leonardo, Maria Portugal, Joana Lança, Inês Pereira, Ada de Castro, entre outros. Destaco a artista Susana Martins, porque estamos neste momento a realizar um projeto musical com componentes de Fado e de raiz popular e tradicional portuguesa. Também com o Rui do Cabo, participámos nas cinco ou seis primeiras edições  do Concurso de Fado de Setúbal.

 

 
 
 

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