TERTÚLIA DO FADO SADINO ...
- Joaquim Gouveia

- 12 de mar.
- 5 min de leitura
Dr. Manuel Guerra Henriques
"O FADO DE COIMBRA VAI EVOLUIR E
CRESCER ENTRE O GOSTO DA MALTA"

Tem sido o grande impulsionador do Fado de Coimbra, na região de Setúbal. Admirador confesso da chamada canção coimbrã, ganhou gosto ao escutá-la e interpretá-la ainda muito joven quando teve os primeiros contactos com as vozes e os trinados das guitarras, diferentes das que marcam compassos e melodias em Lisboa. Depois foi reconhecendo as principais vozes como Fernando Rolim, Luis Goes, Adriano Correia de Oliveira e José Afonso, de quem é autêntico conhecedor de todo o seu percurso de vida onde a sua carreira artística ficou assinalada por tudo quanto trouxe de novo não só ao Fado de Coimbra, mas à própria música portuguesa entre a composição e a escrita de centenas de temas. O Dr. Manuel Guerra Henriques é hoje presença assídua em qualquer espetáculo onde o fado de Lisboa e o de Coimbra, coabitem de mãos dadas e qualidade. É o grande organizador de uma serenata anual em Setúbal e tem em vista para este ano mais uma ou outra iniciativa no mesmo âmbito.
Joaquim Gouveia - O nome do Dr. Manuel Guerra Henriques está, indissociavelmente, ligado ao Fado de Coimbra. Há sempre uma explicação para o início das coisas. Como aconteceu esta paixão que começou cedo e o acompanha ainda nos dias que correm? Afinal de que é feito este fado de origem estudantil, que contagia e vicia, se o termo é o mais correto?...
Dr. Manuel Guerra Henriques - No início da década de 60, ainda no final da escola primária, eu admirava o meu avô materno, que era a voz destacada nos cultos religiosos da aldeia. Ao mesmo tempo era Reitor da Universidade de Coimbra e casado na minha aldeia, a Mata de Lobos, que sempre visitara pelo Natal, o Professor Braga de Cruz. Por outro lado, aos fins de tarde, era frequente a rádio oferecer espaços de canções, de guitarradas de Coimbra, que me abanavam a emoção. Já terminada a escola primária, conduziram-me para o Seminário dos Dominicanos, não muito longe de Coimbra. O caso de o meu professor de Inglês, que ia semanalmente à Universidade, trazia as novidades de livros e discos. Ali, nunca mais me afastei do José Afonso, nos seus sons das baladas e posteriores álbuns até ao fim, lamentável. Se bem que me atraía a voz, o som das guitarras é distinto do som das guitarras de Lisboa. Nem sendo muito diversas, são diferentes no estalo, nos sons autónomos, de imediato sem atentar na morfologia que é evidente no corpo, nos braços e cabeça. Para perceber a diferença, é muito evidente no "Quanto é doce", que o recentemente falecido António Chaínho, reconstruiu do Zeca Afonso, inigualável. O José Afonso e o som do Rui Pato, escaparam a retenções do recentemente António Chainho. O som de Coimbra autónomo não deixa ninguém alheio. Contagia.
JG - Na sua opinião, o fado de Coimbra mantém toda a sua característica obedecendo aos critérios que o diferem do fado de Lisboa, até no recato, ou deveria ser tão popular e "apregoado" como o da capital, por todo o país?
Dr. MGH - Creio que vai evoluir e crescer entre o gosto da malta e seguirá de mão dada com outras realidades instrumentais e poéticas. Já vamos fazendo algum caminho nesse abraço.
JG: O fado de Coimbra é paixão ou um estado de alma? É algo que na sua existência ainda pertence à raiz estudantil e por ela deve ser conservada e "regada" mantendo os seus propósitos?
Dr. MGH - Sinto que é paixão, adoração que, sendo como dizes da raiz estudantil, a verdade é que numa edição recente em livro/selecta, estende-se por quase todas as regiões de Portugal, incluindo Setúbal e vai até às ilhas e antigas colónias, a realidade de existir a Canção de Coimbra.
JG - O fado de Coimbra é nobre, foca-se em temas como o amor, a saudade de uma mulher, a vida estudantil e a boémia, com um tom mais lírico e sereno comparado com o fado de Lisboa. O cantar ressoa mais alto quase obrigando o cantor a possuir dotes de tenor. Canta-se com veste estudantil negra, incluindo a capa, que deve estar traçada. Só os homens o cantam. Porquê? No seu entender deve-se conservar esta condição?
Dr. MGH - Concordo contigo. Mas já não concordo com a exclusividade do sexo. Já vamos achando interpretações com vozes femininas como a Rozete, por exemplo. Acho que não é igual o desempenho, mas não devemos impedir o futuro...

JG - O Dr. Manuel Guerra Henriques é o grande impulsionador dos Encontros do Fado de Coimbra, em Setúbal, que se realizam todos os anos. A Praça de Bocage, frente às arcadas dos Paços do Concelho, enche-se de público. É, porventura, a sua grande noite da qual sai sempre emocionado...
Dr. MGH - À Praça de Bocage, poderemos incluir o Convento de Jesus e o seu amplo Largo, Baluarte, etc. Sem dúvida que é uma noite distinta de beleza sonora, humana e arquitetónica.
JG: Contudo, para criar o grupo "Coimbra no Sado", para além de reunir algumas vozes da cidade, houve necessidade, também, de ensinar as dinâmicas próprias aos guitarristas e violas habituados ao fado de Lisboa. Terá sido um momento aliciante e bem marcante para estes músicos...
Dr. MGH - Eu tenho que louvar, saudar e agradecer aos meus amigos que aderiram a este projeto e garantem a sua continuidade. Damos reciprocamente as mãos, tocamos e cantamos com vontade e gosto.
JG: Habitualmente faz parte dos programas que acabam por cruzar os dois tipos de fado, o de Lisboa e o de Coimbra, pela sua presença. Digamos que os seus momentos são lufadas distintas no correr dos eventos. Como sente a reação do público?
Dr. MGH - Acho que nada impede a coexistência de guitarras, violas e pessoas, vozes e linhas de culturas e cantores vários. O Afonso abraça-se com o Fernando Rolim, ou outros.
JG: É da opinião que há uma tertúlia do fado em Setúbal?
Dr. MGH - Não me perturba a existência de várias iniciativas, com as vozes e instrumentos residentes em casas, salas, tabernas, salões culturais com respeitos particulares.
JG: Como define a atualidade em termos do fado de Coimbra, entre novos e antigos fadistas, guitarristas, violas e autores? Que cantor mais o influenciou na sua carreira?
Dr. MGH - Felizmente surge gente nova e de qualidade excecional na revelação e respeito pelos clássicos dos instrumentos, produção de guitarras, etc.. Mas para mim, sem dúvida que admiro José Afonso, Luís Goes, José Niza (que muito admiro mesmo!), Adriano Correia de Oliveira, Rui Pato, Otávio Sérgio, entre outros.

JG - No seu entender porque é que os turistas adoram o fado, tanto em Lisboa como em Coimbra, sem sequer perceberem as letras e significados do que se canta? É um sentimento único para além da própria emoção?
Dr. MGH - Os turistas adoram sempre a arte, a beleza do instrumento, o som das guitarras, técnicas e que falam por si num abraço dialogado com as vozes dos cantores. Isto não é igual em outros universos também.
JG - Daqui por diante continuará, por certo, a ser sua preocupação divulgar e promover o fado de Coimbra, através das suas atuações e iniciativas. Os jovens estudantes de Setúbal, por exemplo, deveriam escutar e perceber a beleza do fado de Coimbra e começarem, também, de certa forma a dinamizá-lo por cá como acontece com as Tunas Académicas? Como poderá um dia isso vir a acontecer?
Dr. MGH - Creio que existe por aí um desafio a vencer. No presente já existem tunas nos novos institutos que quero sublinhar. Fico contente pois já existe um ou outro que pode agarrar o fado de Coimbra.
JG - Este ano teremos alguma surpresa no Encontro de Setúbal, em Setembro?
Dr. MGH - Estou em ânimo para o desafio deste ano, não só na serenata das celebrações bocageanas, mas estou apontado para mais uma ou duas realizações na nossa cidade de Setúbal. Dentro em breve espero poder comunicar. Um enorme e grato abraço e luta cultural para o Joaquim Gouveia. Obrigado!

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