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Um setubalense na Grã-Bretanha

  • Foto do escritor: José A. Gonçalves
    José A. Gonçalves
  • 29 de jan.
  • 2 min de leitura

O lugar onde a vida tem vergonha



Visitei recentemente os campos de concentração de Auschwitz e Birkenau. Não fui à procura de uma fotografia, mas de um impacto; não fui para registar a minha presença, mas para testemunhar uma ausência. Oitenta anos são um suspiro na História, e o ar naquelas planícies polacas sabe disso. Existe um cheiro a morte que teima em não abandonar o solo, uma densidade invisível que se cola à pele e nos recorda que o horror não se evapora com o tempo. É um lugar onde a biologia parece ter pedido desculpa por continuar a existir. A desolação é de tal ordem que a própria natureza recua: não se ouve o chilrear de uma ave, não se cruza o olhar de um animal vadio. É como se a fauna tivesse decretado um luto eterno, reconhecendo que ali, onde a humanidade foi desmantelada peça por peça, a vida não tem o direito de ser exuberante. A vida tem vergonha de andar por ali. Ao tocar nas paredes ásperas dos blocos, senti um choque elétrico de realidade. Tocar o que foi tocado. Aquelas pedras retiveram o frio, o medo e o último apoio de quem já não tinha chão. É uma conexão física que nenhuma lente de telemóvel consegue traduzir. E é precisamente aqui que reside o abismo moral do nosso tempo. Enquanto outros erguiam os braços para selfies enquadradas pelo arame farpado e pelas torres de Birkenau, guardei o meu telemóvel no bolso com um nó na garganta. Publicar aquela visita no Facebook seria um ato de violência simbólica. Como poderíamos nós, mortais privilegiados que vivem na era do excesso, permitir que o rasto das câmaras de gás aparecesse num feed algorítmico entre um anúncio de um cruzeiro de luxo e a fotografia de um almoço gourmet? Fazer um check-in em Birkenau é reduzir o inferno a um acessório de vaidade digital. É um insulto a quem foi usurpado da possibilidade de respirar, de ter nome ou de manter um resquício de dignidade até ao fim. O silêncio que guardei para mim não foi omissão; foi respeito. Foi a recusa em converter o extermínio em "conteúdo". A nossa sociedade vive hoje num ruído ensurdecedor de autopromoção, mas Auschwitz e Birkenau exigem a mudez. Esta experiência não foi um passeio pelo passado, mas um grito de alerta sobre o presente. Para onde caminha a nossa humanidade? Enquanto o mundo se distrai com filtros e notificações, os tambores de guerra voltam a ressoar no horizonte europeu e global. É um som rítmico, seco e persistente. Os campos de concentração ensinam-nos que a barbárie começa quando deixamos de sentir o peso do outro. Hoje, o ruído das redes sociais abafa o som desses tambores. Saí daqueles portões com uma certeza terrível: a tragédia não é uma fotografia antiga a preto e branco. É uma possibilidade constante. E, nesta fase do nosso tempo, só não ouve os tambores quem não quer.

 
 
 

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