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Um setubalense na Grã-Bretanha.

  • Foto do escritor: José A. Gonçalves
    José A. Gonçalves
  • 8 de mai.
  • 3 min de leitura

Os tios bêbados das redes sociais


Já todos fomos a um casamento em que, a dada altura, há um tio bêbado que começa a arruinar a cena. Assim são as redes sociais. Mas o pior é que, nas redes sociais, os tios bêbados são a regra e não a exceção. A diferença é que, no casamento, o Tio Aurélio é levado gentilmente para um canto para comer uma canja e dormir a sesta. Na internet, o Tio Aurélio, tem um megafone digital, um algoritmo que o adora e a convicção inabalável de que é um génio incompreendido da geopolítica e da ciência aplicada. O meu drama começa quando tento ser um cidadão civilizado. Abro o meu feed com a esperança ingénua de encontrar debate, cultura ou, pelo menos, um vídeo de um panda a espirrar, ou de um gatinho amoroso. Em vez disso, embato de frente num comentário de alguém que, claramente, teve dificuldades em distinguir a cor azul da amarela na primária, que acha que 1 + 1 nem sempre são 2, mas que agora está a explicar as nuances da macroeconomia com a confiança de quem acabou de ganhar um Nobel. É um desperdício de matéria cinzenta. E cansa-me, bolas...

Olho para o ecrã e sinto as minhas células cerebrais a fazerem as malas. Elas simplesmente não querem estar ali e imploram-me: "Por favor, não leias o resto! Preferimos ser usadas para decorar a letra de uma canção dos anos 80, ou qualquer coisa que o valha!". Sei lá... Depois, temos o universo dos eleitores daquele partido que os convenceu que é contra o sistema, mas que faz absolutamente parte do sistema e que espreme o sistema até a última gota como se o sistema fosse uma coisa sagrada porque sem sistema não há mama... Não sei se percebem... Aqui, a discussão entra num campo onde a lógica falece. Tentar explicar a separação de poderes ou direitos fundamentais a esta malta é como tentar instalar o Windows 11, num ábaco de madeira. Não dá. A resposta é sempre previsível: "VAI TRABALHAR!", "VERGONHA!" ou o clássico "ANDA TUDO À MAMA!". É o auge da sofisticação intelectual. Eles não querem debater; eles querem mandar um biqueiro na mesa, entornar o vinho e gritar que o árbitro está comprado. O problema é que o "árbitro" é a realidade, e a realidade não aceita subornos de ignorância. E é aqui que a minha veia democrática começa a estalar.

Eu cresci a acreditar que a liberdade de expressão era o bem supremo. Mas, confesso: há dias em que leio certas opiniões e sinto uma vontade súbita de restaurar o absolutismo, nem que fosse só por uma tarde. Dá-me um desejo, quase físico, de implementar um exame de admissão à internet. Uma prova simples: “Se não consegues interpretar um texto de três linhas, ou se achas que a vacina do tétano magnetiza os cotovelos, não tens direito de acesso à Internet. Vá, vai ali para o cantinho da sala comer canja.” É um sentimento antidemocrático? É. Detesto sentir isto? Absolutamente. Sinto-me um aristocrata arrogante de monóculo a olhar para a plebe? Sim. Mas depois leio mais um comentário escrito em Caps Lock sobre uma alarvidade qualquer e a minha coroa de imperador volta a brilhar com uma intensidade renovada. Aprendi, por sobrevivência, a arte da não-resposta. Não é cobardia, é gestão de inventário. Responder a estas pessoas seria como tentar ensinar física quântica a um pombo: no fim, o pombo continua a não saber física e eu acabo coberto de m... Bom, percebem o ponto.

O meu silêncio é um ato de caridade para com a minha própria sanidade. Guardo os meus neurónios para coisas úteis, como tentar perceber porque é que o saca-rolhas nunca está onde eu o deixo. Debater no feed é um desporto de perda total: gasta-se energia, gasta-se latim e, no final, o tio bêbado continua lá, de copo na mão, a gritar com as nuvens. No fim, fecho o portátil. Respiro fundo. A democracia é lixada porque nos obriga a partilhar o mesmo espaço (e o mesmo oxigénio) com quem trata o conhecimento como uma alergia cutânea. No fundo, eu amo a Liberdade. Mas, por favor, se alguém encontrar o contacto de um bom fornecedor de cercas elétricas para secções de comentários, ou de um bafómetro para teclados, enviem-me por mensagem privada. Prometo que uso com moderação. Ou talvez

 
 
 

1 comentário


Dina Barco
Dina Barco
09 de mai.

Subscrevo completamente. Por causa dos tios bêbados é que deixei de ir a casamentos! 😂

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